Domingo, Maio 09, 2010

O “O Show de Truman” o Show da Vida


O filme “O Show de Truman” dirigido por Perter Weir evoca em toda sua representação a cultura de massa. O filme que traz um “reality show” estrelado por Truman Burbank, interpretado por Jim Carrey, o qual foi filmado durante toda sua vida desde seu nascimento sem saber.
Truman é um morador de uma cidade pequena que possui uma vida padrão com um emprego de escritório casado com uma garota que conheceu em tempos do colégio, mora no subúrbio e é bem quisto pela vizinhança por ser uma pessoa de fácil convívio e bem humorada. O desenrolar da trama consiste basicamente em três pontos: a apresentação da vida e rotina de Truman; ele descobrindo que algo esta errado e que esta sendo manipulado; e ele se libertando e partindo para o mundo “real”.
A sociedade contemporânea é estruturalizada baseada na democracia e no capitalismo, dois fatores que são divergentes. Enquanto a democracia busca privilegiar o indivíduo como pessoa com benefícios e direitos visando a a qualidade de vida da massa o capitalismo se volta para a minoria detetora dos meios de produção e compreende o homem contemporâneo como um fator de produção, feito para o trabalho, necessário para o consumo.
Pensando no fato desses dois pontos divergentes da sociedade atual, capitalismo e democracia, e considerando o trabalho de Émile Durkheim que analisou a sociedade moderna e teorizou o conceito de coesão social e afirmava que "os fatos sociais devem ser tratados como coisas" podemos perceber que a solidariedade orgânica é um comportamento que existe como forma de a ordem social. Para os membros que integram a sociedade esses comportamentos vistos como fato social são formas de integrar a todos como uma sociedade comum, como o fato de comprimentarmos pessoas que não conhecemos ou que mal falamos dizendo os tradicionais bom dia, boa tarde ou boa noite(Jargão usado por Truman) não queremos desejar de fato um bom dia, mas estamos sim interagindo dizendo na verdade um tudo bem mascarado que significa “eu estou bem”, “eu estou feliz”, “estou feliz porque eu concordo com isso” e isso é necessário para a legitimação da sociedade, na sociedade contemporânea se espera que o indivíduo seja uma pessoa funcional para que exista produção porem também existe a preocupação de que este indivíduo seja uma pessoa feliz, não visando a felicidade mas sim a conformidade que esta traz.
A questão desses comportamentos regerem a interação das pessoas dentro da sociedade fara com que exista a preocupação da minoria elitizada em perder o controle, o poder, pois o massa que forma a sociedade e faz com que ela se mantenha funcionando, através do trabalho do consumo. Então assim a elite busca influenciar nesses comportamentos que determinam a interação do indivíduo social, determinando logo a vida do indivíduo, em suas escolhas de com quem se relacionar, aonde ir, o que consumir. A maneira que é utilizada para que ocorra esse controle são as mídias de massa, que criam o padrão de vida, o modelo de comportamento, moldam a moral.
Truman é a representação do estilo de vida padrão. Sua esposa Meryl é a imposição de um padrão de beleza já ocorrido na história americana pelas pin-up girls que traziam modelos joviais e de traços sensíveis. Todo o espetáculo é uma generalização de uma vida perfeita com intermédio de propagandas de produtos, quando na verdade o próprio programa é uma propaganda de estilo de vida.
A Teoria crítica que analisa a industria cultural se apresenta no filme de uma maneira sutil. O filme apresenta dois universos: o de Truman e o dos telespectadores de Truman. Ao mostrar dois mundos diferentes, busca se levantar uma crítica a cultura de massa mostrando garçonetes, guardas, duas velinhas e um cara numa banheira. Essas pessoas encontram-se pressas a realidade do show de Truman e alienadas em relação as próprias realidades, e nem formam uma opinião ao fato de saberem da condição de existência do programa que traz uma pessoa de verdade presa à uma realidade fictícia.
Em relação as propagandas de produtos existentes no decorrer do filme mostra a maneira como as industrias buscam vender seus produtos associando eles a imagem de figuras públicas emprestando a imagem do “famoso” e tentando atingir seu público. Criando essa identidade de “produto que fulano usa” o objetivo claro é o de privilegiar ao capitalismo sem considerar o fator humano nem o fator de qualidade e características reais do produto.
Possuindo o controle das mídias, para quem analisa, fica claro que a minoria elitizada detém prerrogativa na escolha do popular. O que a massa gosta, consome na realidade são determinados pela minoria. Existe um engano ao achar que o que o gosto popular é determinado pela massa, o que acontece é uma manipulação do gosto popular feita por parte da indústria cultural junto a uma alienação que passa a ideia de que você tem o seu próprio gosto quando na realidade você já foi influenciado seja assistindo algo, lendo algo ou ouvindo algo. O consumismo, bem característico aos norte americanos, é estimulado em uma cena em que Meryl diz à Truman para ele se livrar do cortador antigo e comprar um novo. Dessas formar sutis o estilo de vida de Truman é sendo imposto ao seus telespectadores.
Outro grande questionamento sugerido pelo filme é o da noção de realidade. Truman vive em um mundo real ou não? A resposta pode ser dada por Platão em seu mito da caverna. O mito que questiona a questão do conhecimento através da descrição de uma situação em que alguns prisioneiros observam à uma parede dentro de uma caverna iluminada por uma fogueira atrás de suas visões projetando a sombra de alguns objetos, demonstra que o observado não é real e sim apenas uma forma, ou seja uma representação da realidade da coisa em si. E analisando os dois universos do filme, Truman e os telespectadores, para Truman sua vida foi real no sentido em que ele não estava atuando como em alguns shows, a sua existência e o atributo que ele dava ao seu mundo era verdadeiro. O que ocorre é que ele vivia em uma caverna de Platão, sendo que o que ele acreditava ser real não passava de uma projeção da realidade, uma criação para representar o mundo real. Quando ele confronta essa forma da realidade, que é dada pelos produtores do programa , Truman esta questionando o conhecimento que tinha a respeito de si mesmo e iniciando sua libertação da caverna criada para ele. O universo dos telespectadores de Truman se encontra em outra situação, eles se entretêm assistindo ao programa considerando que de fato aquilo é real, pois pra eles apesar de saberem que se trata de um programa é ignorado a questão da produção e ocorre uma interação real, na qual eles se emocionam de verdade com a trama que segue no filme, desenvolvendo sentimentos reais através do fictício, do ilúsório, da forma de representação que é dada da realidade pelo diretor do show, ou seja da projeção dos objetos do mito da caverna mostrando como os telespectadores também se encontram pressos a uma realidade ilusória.
O filme se começa apresentando o protagonista em sua rotina mostrando seu estilo de vida. Um envolvimento com uma garota que foi retirada do elenco por sair do seu papel e contar à Truman o que sua vida não é real e sim um reality-show é trazido ao filme como forma de demonstrar a individualidade do personagem demonstrando que ele possui um sonho e essa ambição será força motora que levará ele a despertar e começar a questionar o mundo ao seu redor.
Como Sócrates fez questionando o seu próprio conhecimento e o das pessoas de sua época afim de buscar um conceito verdadeiro para as coisas através de simples indagações, Truman começa a se libertar ao não entender certas coisas que estão acontecendo com ele. Algumas situações começam a levar Truman a tentar partir da cidade de Seaheaven para Fiji, outra representação do sonho, porem ele se depara com mais situações incomuns e nota que não consegue deixar a cidade de nenhuma maneira. O mass media são “desestimuladores de sonhos” por que eles funcionam para vender sonhos, então o que ocorre é criar um modelo de diversão para que este possa ser consumido e se temos valores que divergem do que é imposto somos estimulados a desistir. Por exemplo: Você pode gostar de algo ou querer fazer algo, porem se essa coisa não possui mercado ela é deixada de lado, isso fara com que o que você quer ou gosta não tenha valor perante a sociedade e dessa forma você é estimulado a abandonar esse gostou ou comportamento. Para Truman essa desestimulação ocorre nas mídias de sua cidade como em cartazes na hora em que procura comprar uma passagem para Fiji. A partir desses acontecimentos estranhos ele começa a indagar que realmente não conhece as coisas a sua volta e nem a si mesmo tanto que no final ele pergunta ao diretor do reality-show quem ele é.
Sócrates recebeu um recado do oráculo do templo de Apolo que afirma que ele é o homem mais sábio de Atenas, que era conhecida por possuir muitas pessoas inteligentes. Porem não acredita ser tão sábio como o oráculo afirma e inicia sua jornada pondo em prática o "conhece-te a ti mesmo". Assim descobrindo que mesmo não sabendo de muitas coisas era julgado pelos deuses como o homem mais sábio entende que era sábio por saber que não sabia, enquanto outros que não sabiam julgavam saber. Truman da um passo em direção ao conhecimento somente no final do filme ao passar pela porta de saída do estúdio como uma analogia ao mito da caverna de Platão Truman começa a ver a realidade e sair do mundo de representação do real. Seus telespectadores continuam a viver no mundo das representações, tanto que ao final do show quando eles cortam a transmissão os dois guardas falam “Vamos ver o que mais está passando” ou seja eles ainda se encontram buscando o real através das formas que a industria cultural projeta nas mídias.
O conhecimento e sua busca é a única forma de ter recursos para poder criticar o domínio que é feito pelas classes altas, que possuem o conhecimento e dosam de uma forma alienante para manter as coisas como são, pois enquanto as coisas forem como são eles ainda serão a elite e ainda serão detentores do conhecimento e de todos os privilégios que a minoria dominante possui. Não existe interesse em informar questões pertinentes a vida real nos mass medias, isso pode ocorrer mas por de trás dessa informação real ela possui todo um interesse de ser publicada. São muitos os filmes, novelas e jornais que trazem situações sobre um universo que se distancia da realidade. Em notícias como os Nardonis, filmes como Tropa de Elite ou novelas como Caminhos da Índia por mais que existam elementos reais em suas composições o objetivo não é informar a respeito de um fato real e sim criar um pensamento popular em relação a este tema sugerido pela elite. Então enquanto o cidadão acredita que esta sendo informado adquirindo mais conhecimento a respeito do mundo em que vive, ele está sendo manipulado para que crie um valor que ele acredita sinceramente que partiu dele mesmo mas não passa de um valor induzido, um falso conhecimento similar as projeções dos objetos do mito da caverna.
Em suma Truman nos mostra a intenção dos meios de comunicação em controlar a opinião pública para criar modelos que serão utilizados pela sociedade como padrão. Inserindo Truman no mito de Platão Truman seria a projeção e ao mesmo tempo o prisioneiro e a industria cultural seria as pessoas que sustentam os objetos para que se crie as projeções na parede, eles comandam o que vai ser “real” e o que não. Por isso existe toda essa ilusão de que o que passa na Tv é a realidade e se não passa é por que não aconteceu, pela falta de conhecimento da massa a sociedade se mantem com os mass medias dosando informações para massa para que exista para que a ordem se mantenha intacta e as classes estáticas.

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