Tudo ta acontecendo tão rápido que mal consigo falar, mal consigo pensar. Já passei por todas aquelas coisas que todos passam, é chato ter uma vida normal, mas não penso que seja normal querer continuar tendo essa vida. Digo vida normal.
Meu vizinho se suicidou ontem. Ouvi rumores que dizem que após sua mulher ter ido para São Paulo para ficar, ele não suportou o abandono e deu um tiro na própria cabeça. Rumores são apenas estórias que são contadas por alguém que não sabe realmente o que aconteceu, mas tem certeza de que foi da maneira que está contando. Ou ao menos quer que seja dessa maneira que está contando. Eu já havia reparado que o mato na frente de sua casa estava mais alto do que o comum. Mas ele apenas se matou ontem. Acho que na verdade talvez ele já tivesse morrido antes mesmo de se matar.
As coisas acontecendo bem na nossa cara e agente nem percebe, pois estamos muito apressados com nossas vidas e perdidos em nossos problemas, matutando estratégias o tempo todo pra descobrir a cura que conserte nosso mundo. Eu na realidade nem sabia que sua mulher havia o abandonado. E agora que ele morreu nem sei se realmente sinto tanto, nem sei o nome do cidadão. Mas vejo essas pessoas que falam dele como se o conhecesse de verdade. Acho que nem tenho esse direito, não diria coisa com coisa pois pra mim só tive conhecimento dele depois que ele morreu.
Há quinze anos moro na capital Paranaense, dentre tantos outros lugares em que morei. Dizem que a grande diferença de Curitiba está nas pessoas, mas não percebo isso porque pessoas são apenas pessoas em qualquer lugar. Acho que algo bom em Curitiba é que não é preciso rodar muito para achar um canto bonito pra se passar um tempo, uma tarde sem que te aborreçam. Pode ser que eu já tenha passado muito tempo aqui e veja como um curitibano apaixonado pela própria cidade e cego na própria vaidade, perdido numa ideia idiota de que pertencer a um lugar.
Em geral em todo lugar as coisas são como no caso de meu vizinho. As coisas acontecem ao nosso redor e só ficamos sabendo depois. E as coisas acontecem a toda hora e em todo lugar, não importa aonde você esteja. É impossível pegar tudo. Só temos de verdade as coisas que acontecem com agente, de resto apenas nos apropriamos do que acontece com os outros.
O que dizem sobre Curitiba e as pessoas acontece em todo lugar, a realidade é que ninguém está nem ai para o que acontece com você. Todos levam uma vida normal e chata, ninguém se interessa por isso. Em todos lugares existem pessoas acostumadas com a mediocridade não é um privilégio curitibano. Mas o Brasil é um país cheio de esteriótipos onde todos os cidadãos são reduzidos a uma piada.
Existe um período de latência na vida que marca cada fase por que passamos, para podermos amadurecer ideias. Agora mesmo passo por um e é quando tudo acontece rápido e parece que estamos perdendo tudo. Eu sou a piada do esteriótipo. Porém quando nada acontece é um tempo bom para perceber o que acontece com os outros, as pessoas são motivadas por puros interesses. Há muitas pessoas que ficam perto de outras para que as coisas aconteçam para elas também. Existem diversas maneiras da pessoa se prostituir, e a mais tradicional nem sempre é a mais imoral. Se a moral esta ligada a tradição, eu diria que a tradição está mudando.
Na Boca Maldita encontramos vários velhos ostentando cabelos grisalhos e com aspecto sério, como se as pessoas devessem parar para ouvi-los conversando. É um ponto turístico e eles são a atração. Um dia seremos esses velhos que ostentam cabelos grisalhos e nossas roupas serão chamadas de antiguadas. Não vamos mais entender as piadas e iremos alugar pessoas estranhas com nossas estórias de vida. As coisas não irão mais acontecer pra gente. A tradição irá mudar novamente.
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